Jardim da Serenidade

Espaço dedicado ao pôr-em-vida aqueles versos tortos que insistem em ser escritos. Procuremos a serenidade, vi ela passar por aqui há pouco. Procuremos, a serenidade deve estar em algum lugar!

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Local: Santa Maria, RS, Brazil

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

ESCARPA

Ainda em dezembro cantava eu os poemas incompletos de um ano por completar-se.

Ainda ontem mesmo me imaginei amanhã, podendo ser somente hoje.

Reúnem-se todos agora, aziagos das mágoas trazidas de outrora.

E cantam e dançam, sedentos de vida, as odes vivas à alegria, e embebidos em paixões trans-bordam as copas douras de um brilho feliz.

No fundo do olho miro calmo.

O ponto por onde foges

É onde te alcanço. E

Ao tocar-te, te afastas

Para que eu te procure,

Em ti.

E, ainda por lá, por onde passamos,

E eu era queda, em minha direção subias,

Por pensares caminhar ao cimo!

Mauricio de Azevedo

ANTECIPAÇÃO

Ao deus-tempo

De nada adianta, agora que a madrugada devora o silêncio,

Com a pretensão de nunca parar de ser dia e ser noite ao mesmo tempo mesmo.

De nada adianta agora o agora da madrugada, o ruído oco do silêncio.

O que se antecipa é o mesmo ontem no mesmo amanhã.

De nada adianta a madrugada agora nada.

Nada adianta nada agora, nem o relógio e nem a madrugada que adianta o amanhã, enquanto apagamos o ontem em nossos sonhos de nós mesmos.

Agora não adianta mais nada, tudo que somente mantém.

Estás deveras atrasado.

Adiante! Brada o chefe da marcha.

E indo adiante, adiantando, nunca é agora, pois tudo é adiado para que se vá adiante.

Pois agora, agora mesmo, o presente não é, e, não sendo, só adianta sem parar aquilo que está por vir.

Sim meus amigos: o presente quer sempre adiantar-se, assim nunca vivemos no presente e embora o saibamos, do mesmo modo, nunca chegamos lá, onde quer que seja.

Mauricio de Azevedo

Na Primavera: a primeira das verdades

nesse tórrido ano que já nem sei qual é.

SEM A COBERTA

A pena, em frêmitos estertores, vaza

Ao controle da mão inútil.

Quantas vezes te vi, te re-vi, sem que eu, nem tu, tu mesma, nem outra ou outralteridade fosse.

Mas bendiga os ventos, ora sul, ora norte, ora frio, ora rosa.

E o botão feneceu.

E as folhas, os rios e as lágrimas secaram.

E fenecemos nós, também.

Como não, se tudo ao tempo obedece, se as cores, em sua aguda rutilância em opúsculo crespo, abrigam sobre si, o manto negro e perfurado da noite, por onde, entre as frestas, vemos as estrelas gotejar luz, que não nos banha, mas nos encanta.

Mauricio de Azevedo

O FAZER-SE POEMA

Queria fazer um poema todo,

Um poema uno, que a todos falasse e a todos dissesse,

Aquilo que cada um dos todos quisesse que fosse dito.

Um poema gigantesco, que falasse da vida e da morte, de cada um e de todos.

Um poema universo, que pusesse as esferas a girar,

Que permeasse, que fluidificasse os sentidos e as fronteiras.

Um poema completo e tão atual que fosse sempre sendo escrito, e que por isso fosse sempre aberto, sempre agora, constantemente aqui, vivo, como o fogo que jorra da boca infernal de um dragão dilacerado.

Um poema vivo, nunca acabado.

Um poema insensato incessante.

Um poema vivo, um poema deveras, não definito.

Um poema impossível.

Mauricio de Azevedo

Primavera de 2005

TEMPORAL

E se eu quiser viver?

E a dualidade da caída da tarde?

Cores misturadas, às vezes,

São cores misturadas.

E se eu não beber até morrer?

Se eu não duvidar do Paulo Coelho? Quem não duvida nem sempre crê.

Se eu não quiser uma noite com a Carla Perez ou com a Feiticeira?

Se eu achasse que o João Gordo hoje se parece com Lazier Martins?

E se...se nada disso...

Mas, se eu não quiser ter nome ou rótulo,

Se eu não quiser ser outro?

Sempre serei o louco.

O que dizer do que já foi dito?

Pra quê falar do que não se fala?

De toda a enumeração do existencialismo carcomido?

Do marxismo até agora derrotado.

Do militarismo absurdo.

Do capitalismo pernicioso.

Da raiva abundante.

Da beleza roubada.

Da religião fanática.

Da tecnocracia oculta.

Da tragicomédia-mitológica da humanidade moderna.

Do caos informativo.

Da profusão de signos.

Das mentiras verdadeiras.

Das línguas mortas.

E daquelas que nem nasceram.

Não!

E do universo?

Dos paralelos temporais.

Dos tempos negativos.

Das temperaturas absolutas.

Dos universos simultâneos.

De vários universos,

De milhares de universos.

Versos, anversos, reversos.

E dos jogos de linguagem,

Talvez o mais infame deles?

E da intradutibilidade...

E o que se sabe disso?

E o que se sabe do que se sabe?

E o que esperar de um ego obliterado?

Preferível seria falar de amor...

Mauricio de Azevedo