Jardim da Serenidade

Espaço dedicado ao pôr-em-vida aqueles versos tortos que insistem em ser escritos. Procuremos a serenidade, vi ela passar por aqui há pouco. Procuremos, a serenidade deve estar em algum lugar!

Nome:
Local: Santa Maria, RS, Brazil

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Desprendimento da alma

Finalmente reconheço que inverti a ordem do tempo

O domingo virou semana e a semana já não é nada

Finalmente reconheço que estou do outro lado do espelho

E há muito sou outro

De outra natureza daquele outro que agora sou eu

Raios racionalidade

Finalmente exponho a culpa

De ter ativado o cronômetro em contagem regressiva

De estar vivo e por amar a morte

Estar muito apegado à vida

E de aguardar com uma pressa calma

O desprendimento da alma



Mauricio de Azevedo

quarta-feira, novembro 15, 2006

EXCURSO

O jardim da serenidade é o cemitério onde se está imóvel e enterrrado, nunca foi o inferno, muito menos o céu.

Vem comigo estranho. Vem e pega minha mão que os espíritos estão furiosos e assim não param até que amanheça.

Cuidado, cuidado com a maldita e insana idade, isso pode ser o fim! Adeus meu amigo novo. Novo que acabo de chegar em casa e nem saí.

1ª con-sentido

O sol impõe sua luz e seu calor, os homens inventam chapéus e pagam pela condição do ar. Vestem lentes escuras retas e seus olhos se abrem para a lua. Três homens outros expulsaram o santo, mas foram dominados pelo dragão cotejando maldade e fogo no peito e nos olhares falando enxofre e chumbo.

2ª depois

Depois cemitério é qualquer lugar onde tombamos nossos mortos, as praças, os jardins e as ratazanas fossilizadas. A condição incondicionada é o sol, nem bom, nem mal e não a liberdade que é a incondição de qualquer coisa, qualquer coisa condicionada. O sol é o sol e a liberdade não pode ser nada. Por isso o sol é mais que luz e calor, mais que massa e hélio é também escuro e um balão de fogo que quando enlouquece suga tudo até a luz que tu pensava ser tudo. Mas olho pela janela e o sol não é isso e a lua não é isso nem o dragão nem o santo é isso. Nada é nada e nada não pode ser isso. Isso é o que é e é só isso.

3ª segunda

Agora novo estranho caminhamos entre os mortos, pega minha mão e não me prega. No jardim ou existem oliveiras ou ciprestes para ser o cemitério. Depois sim, depois a cruz e depois cruzes mas aí é jardim e ninguém ali é sereno porque não há ninguém, uns partiram para o céu outros para o inferno, partiram que o corpo é inútil e só serve para queimar. A cruz que não é serena, nem o sol, nem o santo, nem a lua. O dragão é coerente de que a serenidade só interessa aos espíritos inserenos. Sereno. Ou é a oliveira ou o cipreste, qualquer um, mais o ar da noite.

4ª desperta

Se ergueram e remorrerão. Mas então não estavam no céu nem no inferno daí que o espírito é oco por fora e veste o corpo como uma roupa. O céu e o inferno não são jardins, que no céu e no inferno não estão ou as oliveiras ou os ciprestes, e não são serenos, que serenos só são ou as oliveiras ou os ciprestes, qualquer um deles, mais o ar da noite. Mas não podem ser serenos porque não são jardins, e são jardins só onde estão ou as oliveiras ou os ciprestes, que podem sim ser serenos, qualquer um deles, mais o ar da noite.

5ª qualquer?

No lugar da lua há um vazio e não um buraco que só pode ser onde o sol não não está. é sol estando também calor e luz e não vazio, porque o não-sol é um sim-buraco que engole luz. No vazio que era a lua ela não é, pois era, vazia de santo e vazia de dragão e os três homens que seguiram a estrela e expulsaram o santo foram tomados pelo dragão e mais a terra perto do sol e o vazio que estava lua. E na terra há jonas, na baleia e a baleia na terra e a terra no dragão e jonas na baleia e no dragão e a baleia na terra e no dragão e a terra no dragão e o dragão nos três homens mais o não-vazio lua e o não-buraco e a terra, a terra em apenas três homens e nesses três o dragão.

6ª passeia

Mas vem pequeno estranho, novo, vem e pega minha mão, pega minha mão porque é agora, é agora que o sinal insinua fechado, e atravessamos a rua, atravessamos a rua e vamos, atravessamos e vamos, vamos, vamos que o sol é logo ali e depois o cemitério.



Mauricio de Azevedo

segunda-feira, junho 12, 2006

Alguns versos ingênuos

Tanta estrada ainda por correr, tanto caminho ainda por caminhar.
Percorrer, para entre a turba retumbar, os ecos do esquizo-penso.
Dividido em dois, um eu e um utro eu, eco de mim mesmo.
Os tons se confundem e a desafinação, o mono da cromaticidade, me revelam o lunático enquanto presente constante afastado de mim.
Comungam em pensamentos intrusos e entrecortados as várias facetas do outro eu que sou eu mesmo. E reverbera o verbo, mostrando o anverso do vesso.
Veros versos ingênuos e nada mais...

De hoje (da matéria do tempo)

Matéria e material
Importar a importância.
Jactar, verter, fundir a negligência e a ignorância.

Bentos todos sois antes de se porem todos os sois, no giro da esfera a corrente linha.
Beltrano era meu amigo e dizia que mais vale um bem para todos que uma moeda de minha.
Beltrano era meu amigo e calou-se, mãos calejadas, porque lhe doía o estômago vazio de seu filho.
Beltrano era e foi calado, mãos calejadas, pois descobriu, que mais que a fazenda que vestes, mais que as mortes por pestes, mais que o trabalho, sangue e suor que destes, importa a renda, a conta e o contra-cheques que investes.

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

ESCARPA

Ainda em dezembro cantava eu os poemas incompletos de um ano por completar-se.

Ainda ontem mesmo me imaginei amanhã, podendo ser somente hoje.

Reúnem-se todos agora, aziagos das mágoas trazidas de outrora.

E cantam e dançam, sedentos de vida, as odes vivas à alegria, e embebidos em paixões trans-bordam as copas douras de um brilho feliz.

No fundo do olho miro calmo.

O ponto por onde foges

É onde te alcanço. E

Ao tocar-te, te afastas

Para que eu te procure,

Em ti.

E, ainda por lá, por onde passamos,

E eu era queda, em minha direção subias,

Por pensares caminhar ao cimo!

Mauricio de Azevedo

ANTECIPAÇÃO

Ao deus-tempo

De nada adianta, agora que a madrugada devora o silêncio,

Com a pretensão de nunca parar de ser dia e ser noite ao mesmo tempo mesmo.

De nada adianta agora o agora da madrugada, o ruído oco do silêncio.

O que se antecipa é o mesmo ontem no mesmo amanhã.

De nada adianta a madrugada agora nada.

Nada adianta nada agora, nem o relógio e nem a madrugada que adianta o amanhã, enquanto apagamos o ontem em nossos sonhos de nós mesmos.

Agora não adianta mais nada, tudo que somente mantém.

Estás deveras atrasado.

Adiante! Brada o chefe da marcha.

E indo adiante, adiantando, nunca é agora, pois tudo é adiado para que se vá adiante.

Pois agora, agora mesmo, o presente não é, e, não sendo, só adianta sem parar aquilo que está por vir.

Sim meus amigos: o presente quer sempre adiantar-se, assim nunca vivemos no presente e embora o saibamos, do mesmo modo, nunca chegamos lá, onde quer que seja.

Mauricio de Azevedo

Na Primavera: a primeira das verdades

nesse tórrido ano que já nem sei qual é.

SEM A COBERTA

A pena, em frêmitos estertores, vaza

Ao controle da mão inútil.

Quantas vezes te vi, te re-vi, sem que eu, nem tu, tu mesma, nem outra ou outralteridade fosse.

Mas bendiga os ventos, ora sul, ora norte, ora frio, ora rosa.

E o botão feneceu.

E as folhas, os rios e as lágrimas secaram.

E fenecemos nós, também.

Como não, se tudo ao tempo obedece, se as cores, em sua aguda rutilância em opúsculo crespo, abrigam sobre si, o manto negro e perfurado da noite, por onde, entre as frestas, vemos as estrelas gotejar luz, que não nos banha, mas nos encanta.

Mauricio de Azevedo

O FAZER-SE POEMA

Queria fazer um poema todo,

Um poema uno, que a todos falasse e a todos dissesse,

Aquilo que cada um dos todos quisesse que fosse dito.

Um poema gigantesco, que falasse da vida e da morte, de cada um e de todos.

Um poema universo, que pusesse as esferas a girar,

Que permeasse, que fluidificasse os sentidos e as fronteiras.

Um poema completo e tão atual que fosse sempre sendo escrito, e que por isso fosse sempre aberto, sempre agora, constantemente aqui, vivo, como o fogo que jorra da boca infernal de um dragão dilacerado.

Um poema vivo, nunca acabado.

Um poema insensato incessante.

Um poema vivo, um poema deveras, não definito.

Um poema impossível.

Mauricio de Azevedo

Primavera de 2005

TEMPORAL

E se eu quiser viver?

E a dualidade da caída da tarde?

Cores misturadas, às vezes,

São cores misturadas.

E se eu não beber até morrer?

Se eu não duvidar do Paulo Coelho? Quem não duvida nem sempre crê.

Se eu não quiser uma noite com a Carla Perez ou com a Feiticeira?

Se eu achasse que o João Gordo hoje se parece com Lazier Martins?

E se...se nada disso...

Mas, se eu não quiser ter nome ou rótulo,

Se eu não quiser ser outro?

Sempre serei o louco.

O que dizer do que já foi dito?

Pra quê falar do que não se fala?

De toda a enumeração do existencialismo carcomido?

Do marxismo até agora derrotado.

Do militarismo absurdo.

Do capitalismo pernicioso.

Da raiva abundante.

Da beleza roubada.

Da religião fanática.

Da tecnocracia oculta.

Da tragicomédia-mitológica da humanidade moderna.

Do caos informativo.

Da profusão de signos.

Das mentiras verdadeiras.

Das línguas mortas.

E daquelas que nem nasceram.

Não!

E do universo?

Dos paralelos temporais.

Dos tempos negativos.

Das temperaturas absolutas.

Dos universos simultâneos.

De vários universos,

De milhares de universos.

Versos, anversos, reversos.

E dos jogos de linguagem,

Talvez o mais infame deles?

E da intradutibilidade...

E o que se sabe disso?

E o que se sabe do que se sabe?

E o que esperar de um ego obliterado?

Preferível seria falar de amor...

Mauricio de Azevedo